ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

Ora saiam lá essas histórias lembrando os tempos em que nós pouco mais tínhamos do que os bons momentos que passávamos a jogar ping-pong, dominó, damas, sueca, vela, remo, acampamentos, ginástica, e partir vidros no recreio!
E, para começar, vou já contar uma que se passou comigo um pouco antes de eu entrar para filiado da Mocidade Portuguesa e que só tem a ver com esta porque os rapazes que estavam a jogar ping-pong a esta pertenciam:
Quem passou pela Mocidade sabe que a mesa de ping-pong estava instalada lá ao fundo no recreio da escola. Nessa altura eu estava no fim da 4ª classe, encontrava-me no recreio e calçava umas chancas com solas de madeira, porque era inverno e o dinheiro não dava para sapatos! A certa altura, um dos ping-ponguista mandou uma raquetada na bola e mandou-a para o sítio onde eu me encontrava. - Zé Meiras, manda daí essa bola - gritou o artista! Ora o Zé Meiras não se fez de rogado, e manda um violento pontapé na bola com a chanca que, por ser de madeira, mandou a bola com uma violência que mais parecia uma raquetada! O pior é que não foi só a bola! É que enquanto a bola se dirigiu para cima da mesa, a chanca dirigui-se para um daqueles vidros que guarneciam o recreio e provocou um estouro que se ouviu em toda a escola e, penso que, também nas Marinhas e São Bartolomeu! Para minha desgraça, chovia e o recreio estava repleto de canalhada que, ao ouvir semelhante bomba, gritou em uníssuno - estupores parecia que tinham ensaiado tal coro , só para me tramarem: - "Oooooooiiii", já estás com o Senhor Professor! Sacanas eram para aí uns cem, pareciam mais de mil! Mais não foi preciso... apareceu logo a Dª Loca! - O que foi? - Foi o Zé Meiras que partiu um vidro com uma chanca! O quê? - Ó Carlos, anda cá depressa... um maroto partiu aqui um vidro! Um segundo depois, irrompe de dentro da porta a figura colossal do professor Carlos Martins que, com aquela cara "meiga" que ele fazia quando estava "bem disposto", exclamou: - Quem foi? E logo toda aquela cambada se afastou de mim, deixando-me ali sozinho colado ao chão; olhando para o maldito pé que ainda se encontrava descalço, como se eu fosse um assassino, novamente em uníssuno grunhiu:- Foi o Zé Meiras Sôr Pressôr! Eu coitado, ali gelado a olhar para o chão... estava já à espera da sentença que, no mínimo dos casos, ía ser de meia dúzia de doces. - Vem cá dentro meu rapaz; anda vamos conversar; vamos ver se isto aqui é para andarmos aos pontapés aos vidros. Enquanto eu me aproximava ia preparando a defesa: - Sôr Pressôr num dei um pontapé no vidro, eu dei um pontapé na bola porque me pediram! Trás... um violento cachaço seguido da resposta, foi logo o prémio por me tentar defender: - então o vidro partiu-se sozinho! Trás... outro cachaço! Anda para dentro vamos conversar: - Em primeiro, chegando a casa, vais dizer à tua mãe que vá ao Mendes e Castro e compre um vidro igual àquele e o mande pôr no sítio, e agora: - dá cá essa mão, que eu quero te fazer umas festas; meia dúzia! - Agora dá cá a outra; outra meia! Nunca pensei que eu resistiria àquilo sem chorar! Mas naquela hora nem que quizesse não poderia! A raiva era tanta que eu só pensava em vingar-me; uma dúzia de bolos e ainda tinha que enfrentar a minha mãe! Com ela, eu sabia que não me bateria, pois ela não era uma pessoa estúpida e compreenderia, mas era chato envolvê-la nisto. Pagar o vidro é justo, afinal, fui eu quem o partiu!
Agora levar uma carga destas de porrada... eu não aceito: Vou iscar anzois aos banhistas para ganhar dinheiro para mandar botar o vidro e, depois, deixo passar algum tempo, vou lá de noite e faço uma rasia nos vidros que não deixo um único direito.
Negativo... cheguei em casa, contei tudo à minha mâe e disse-lhe que não se preocupasse, que eu arranjava o dinheiro e eu próprio mandava botar o vidro no sítio.
Deixei passar uns três dias, fui lá de noite, saltei o muro da sete moléstias e, com uma navalha tirei o betume de um vidro loge daquele que eu tinha partido, peguei nele e trouxe-o embora. Em casa peguei em petróleo, limpei-o de forma a que não se notasse que já era usado e pedi ao Sr. Cândido Alves, que era boa pessoa, expliquei-lhe o que se passava. Ele sorriu, foi lá pô-lo e guardou segredo até da minha mãe que,aí sim, era capaz de me dar uns tabéfes, e por aqui me fiquei.
Fui realmente vítima de uma injustiça: se levava porrada não devia pagar, se eu pagava não devia levar porrada. O professor foi injusto comigo! Talvez estivesse mal disposto e, digo isto, porque eu, até ali, nunca tinha tido razão de queixa dele e depois disso, ele sempre foi um tipo porreiro comigo... são horas!

Destas assim vivi algumas naquele tempo e naquele lugar.

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Respostas a este tópico

José Meira, você me fez lembrar das batidas com palmatórias nas mãos dos alunos que o prof. Carlos Martins dava quando um aluno cometia alguma falta grave. Eu não me lembro que faltas graves eram essas, pois ele chamava um por um da relação de alunos que tinha na mão, e com o estilo Hitler, castiva-os na frente de todos os demais, talvez para dar o exemplo.
Eu não me lembro, mas essa prática era comum nas escolas de Portugal? Eu me lembro que até os professores na sala de aula também batiam quando você errasse alguma palavra.
Quando cheguei ao Brasil, nas escolas não tinha nada disso, e o Brasil naquela época era considerado um país de 3º mundo. Imagina se Portugal também fosse assim.
Não sei se essa prática era da era salazarista, acredito que não. Ou se era uma prática do Carlos Martins.
De qualquer forma, o estudo em Portugal era muito melhor que no Brasil, pois nos primeiros anos da chegada ao Brasil, eu e minha irmã, Maria Armanda, eramos os melhores alunos da sala, ela a nº 1 e eu a seguir. Mas não era pela nossa inteligência, mas pela bagagem cultural que nós trouxemos de Portugal. Nos anos subsequentes nós ficamos nivelados aos demais alunos da sala.
A nossa educação em Portugal era alimentada não com bolo com cevada, mas com bolo nas mãos. Um absurdo.
Um abraço do amigo.
António Abertas.
Caro Zé:
A história que conta é o retrato fiel de uma época escolar que, penso eu, nenhum dos que por lá passou irá esquecer. O terror que sentíamos ficou gravado nas nossas pequenas mentes de então. Quando hoje olho para um pequenito de sete ou oito anos e me lembro desses tempos interrogo-me de como era possível bater, mesmo espancar, um ser tão frágil. Claro que éramos marotos e fazíamos um montão de asneiras. Mas daí a sermos bandidos passíveis de tais castigos vai uma diferença descomunal. E os tempos e os hábitos não são desculpa. Há coisas que não tem mesmo qualquer desculpa. Mas tenho que acrescentar que ainda pior do que a brutalidade seria talvez a injustiça. É que nem todos levavam. Nem todos eram sancionados daquela forma. Eu nunca levei com a Santa Biscobina. Era filho do Sr. Lamela e isso bastava para que em mim funcionasse a pedagogia da palavra. Suponho que o Luís Basto também nunca levou, ou se levou foi uma raridade. O Beto Roriz foi outro que também passou ao largo. Mas nós também fazíamos asneiras, também dávamos erros no ditado, tínhamos a letra uns dias melhor desenhada outros pior, corríamos à volta da cantina (supremo crime), éramos iguais aos demais colegas. Mas o Maduro de Gandra, o Guedes, o Armindo (Chupa), eu sei lá quantos, eram verdadeiros sacos de pancada. Ser pobre, não ter um pai com alguma posição era uma condenação.
Não me digam que os tempos eram assim. Algumas pessoas eram assim como ainda hoje há pessoas assim. E o mal não está nos tempos, está nas pessoas.
Ai Zé, que vontade de ir consigo de noite e partir aqueles vidros todos!...
Luis Lamela e Lili Lamela disse:
Caro Zé:
A história que conta é o retrato fiel de uma época escolar que, penso eu, nenhum dos que por lá passou irá esquecer. O terror que sentíamos ficou gravado nas nossas pequenas mentes de então. Quando hoje olho para um pequenito de sete ou oito anos e me lembro desses tempos interrogo-me de como era possível bater, mesmo espancar, um ser tão frágil. Claro que éramos marotos e fazíamos um montão de asneiras. Mas daí a sermos bandidos passíveis de tais castigos vai uma diferença descomunal. E os tempos e os hábitos não são desculpa. Há coisas que não tem mesmo qualquer desculpa. Mas tenho que acrescentar que ainda pior do que a brutalidade seria talvez a injustiça. É que nem todos levavam. Nem todos eram sancionados daquela forma. Eu nunca levei com a Santa Biscobina. Era filho do Sr. Lamela e isso bastava para que em mim funcionasse a pedagogia da palavra. Suponho que o Luís Basto também nunca levou, ou se levou foi uma raridade. O Beto Roriz foi outro que também passou ao largo. Mas nós também fazíamos asneiras, também dávamos erros no ditado, tínhamos a letra uns dias melhor desenhada outros pior, corríamos à volta da cantina (supremo crime), éramos iguais aos demais colegas. Mas o Maduro de Gandra, o Guedes, o Armindo (Chupa), eu sei lá quantos, eram verdadeiros sacos de pancada. Ser pobre, não ter um pai com alguma posição era uma condenação.
Não me digam que os tempos eram assim. Algumas pessoas eram assim como ainda hoje há pessoas assim. E o mal não está nos tempos, está nas pessoas.
Ai Zé, que vontade de ir consigo de noite e partir aqueles vidros todos!...
Olá Luiz.
Eu, particularmente, tirando essa vez, não tenho grande razão de queixa do professor, embora reconheça que, às vezes ele exagerava!
Vejo esta postura de duas maneiras: se por um lado ele era insencível à dor e à repressão psicológica que provocava àqueles que não tinham qualquer possibilidade dele se defenderem, por outro, impunha uma disciplina propícia a corrigir alguma deficiência de educação manifestada por uma boa parte dos alunos daquele tempo. Lembro que grande parte de nós pertencíamos a famílias muito numerosas e, nestas situações, era muito difícil aos pais procederem a uma educação cuidada dos filhos. Assim uma boa parte da malta crescia um pouco à balda e, muitas vezes, não tinha um comportamento satisfatório.
Naturalmente que classificamos aquela atitude de inaceitável, de revoltante até, mas, se repararmos, embora não a usassem com tanta dureza, na altura, todos os professores tinham a sua palmatória.
Por outro lado, assistimos hoje a uma selvejaria em algumas escolas que nunca aconteceria naquele tempo! Alguma vez se viu alunos a bater em professores? Eu já vi uma professora, quase a chorar, dizer que tinha medo de ir para a escola, porque um aluno e a mãe lhe queriam bater!
Aqui dá-me a impressão de que ou se pisa, ou se é pisado. Parece ser difícil encontrar um ponto de equilíbrio!
De qualquer maneira, é sabido que o professor em questão não foi um exemplo de misericódia para ninguém, mas que os alunos que lhe passaram pelas mãos saíram mais afinados... lá isso saíram. E, de uma maneira geral, quase toda aquela malta saiu para a vida de uma forma mais bem preparada e isso foi importante dada a baixa escolaridade que se verificava na altura.
Se reparar-mos, começamos por dar tratamento a um tema ( MOCIDADE PORTUGUESA) e descambamos para outro!
Isto faz parte do charme deste blog.
Um abraço.
António José Pereira Abertas disse:
José Meira, você me fez lembrar das batidas com palmatórias nas mãos dos alunos que o prof. Carlos Martins dava quando um aluno cometia alguma falta grave. Eu não me lembro que faltas graves eram essas, pois ele chamava um por um da relação de alunos que tinha na mão, e com o estilo Hitler, castiva-os na frente de todos os demais, talvez para dar o exemplo.
Eu não me lembro, mas essa prática era comum nas escolas de Portugal? Eu me lembro que até os professores na sala de aula também batiam quando você errasse alguma palavra.
Quando cheguei ao Brasil, nas escolas não tinha nada disso, e o Brasil naquela época era considerado um país de 3º mundo. Imagina se Portugal também fosse assim.
Não sei se essa prática era da era salazarista, acredito que não. Ou se era uma prática do Carlos Martins.
De qualquer forma, o estudo em Portugal era muito melhor que no Brasil, pois nos primeiros anos da chegada ao Brasil, eu e minha irmã, Maria Armanda, eramos os melhores alunos da sala, ela a nº 1 e eu a seguir. Mas não era pela nossa inteligência, mas pela bagagem cultural que nós trouxemos de Portugal. Nos anos subsequentes nós ficamos nivelados aos demais alunos da sala.
A nossa educação em Portugal era alimentada não com bolo com cevada, mas com bolo nas mãos. Um absurdo.
Um abraço do amigo.
António Abertas.
Olá António.

Era sim uma prática comum - o bolo da palmatória. Tal costume só foi possível no tempo do Salazar! Hoje existe outra prática de índole diferente mas, igualmente perversa: a dos alunos agredirem os professores! Parece haver uma balança que não consegue estabilizar o peso! A carga que a pressionava na direita deslocou-se completamente para a esquerda, não dando lugar ao equilíbrio.
Estes são degraus que os países atrasados têm que, penosamente, ir subindo no seu caminho para a civilização.
Infelizmente, uma sociedade que se respeite mutuamente, ainda está algo distante do nosso horizonte.
Enfim, vamos vivendo com o que temos.
Um abraço.
Caro Zé:
O bom que tem este fórum é que nos dá a oportunidade de discutir, de conversar, de expor ideias. E também de discordar. Por isso, perdoe-me meu bom amigo, mas tenho que discordar do seu último texto.
Efectivamente hoje há violência nas escolas e de sentido contrário ao nosso tempo. Mas isso deve-se ao facto dos professores não baterem nas crianças? Não posso de forma nenhuma concordar. As crianças do tempo em que éramos crianças eram menos educadas do que as de hoje, porque os pais não lhes ligavam? Também discordo.
Nunca as crianças foram tão abandonadas como hoje. Antigamente as Mães estavam muito mais por casa. Hoje abandonam-nas nas creches, esgotam-lhes o tempo entre o bale, o Karaté e a lição de piano sem esquecer o instituto Britânico. E, chegados a casa, enquanto o pai e a mãe vêem a novela, treinam jogos de guerra ou luta na playstation. A vida de hoje é muito pior educadora do que a de então, isso sim. Os miúdos do nosso tempo eram pobres na generalidade, descalços muitos, mas eram respeitadores. E tinham respeito aos pais e aos professores. Hoje não terão tanto respeito a ambos. E a culpa é deles? É dos pais? Ou será da vida e do mundo que vivemos tão afastado de valores que na altura tanto prezávamos.
Mas há uma coisa que para mim é mágica, me encanta e me recorda com amargura dos velhos tempos: hoje as crianças vão para a escola com alegria, não tem medo. Há algo melhor do que isso? Lembro-me super bem de um colega que logo de manhã vomitava todos os dias. Todos os dias sem falhar a Sra Aurora (doce funcionária que vinha de Gemeses todos os dias na sua bicicleta) vinha atrás dele com o balde e o pano para limpar o chão. Só não vomitava nos dias em que o Sr. Professor Carlos Martins estava para Lisboa ou outro lugar qualquer, o que não era raro acontecer.
Claro que a palmatória era frequente ou quase uma constante de todas as escolas da época. Digo quase, porque nem sempre assim era e posso com toda a certeza usar o testemunho de muitas nossas colegas de blog ao afirmar que a minha Tia Miquinhas nunca a usou e foi uma professora de mão cheia. E as suas alunas não foram educadas nesse tempo em famílias numerosas e ao Deus dará? A diferença está na atitude. Eu tive umas dezenas de professores durante a minha vida escolar e todos eles diferentes. Aqueles a que chamamos maus, os assim-assim e outros de boa índole. Mas não eram essas as diferenças que contavam na variação do nosso comportamento. O que contava era a forma como davam as aulas. A classe com que alguns nos pregavam ao quadro, à palavra, ao saber e ao saber ensinar. Isso sim, fazia a diferença.
E ainda há outra coisa: a justiça. As crianças são super sensíveis aos fenómenos de injustiça. Lembro por exemplo o Professor Joaquim Peixoto, meu professor da 4ª classe. Também tinha palmatória, também dava uns bolos, mas dava a todos. Com ele também levei igual ao Guedes, ao Miguel da Neixa e a todos. Por isso lhe guardo um lugar no coração. Deu-me umas palmadas, umas canadas, mas deu-me mais do que tudo conhecimento e a noção de justiça.
Com outros não era assim.
E, mais uma vez, deixe-me defender a malta do nosso tempo. Não me diga que eu era mais mal educado do que são agora os meus filho Luisinho e Carolina, que o meu amigo era mais mal educado que a Minda ou a Vânia, que o Américo Tainha era mais mal educado que o Pedro. Somos todos iguais, cada um na sua época.
E, meu caro, acho que temos a obrigação de os alertar contra a tirania e a injustiça. Por isso perdoe-me a minha discordância, mas é assim que penso. Vi coisas que não posso calar e como diz a cantiga “falarei até que a voz me doa”.
Meu bom amigo Luiz.
Está longe de mim a ideia de branquear a atitude do professor Carlos Martins...
Depois do que ele me fez a mim, como é que eu posso concordar com a maneira como ele agia?
Agora posso dizer-lhe que cada um vê o panorama conforme a janela em que se encontra, e a sua janela, por muito próxima que estivesse da minha, não lhe mostrava parte das imagens que eu tinha possibilidade de observar.
Ora vejamos: posso fazer-lhe uma pergunta? Quantas vezes foi você chamado à GNR por actos menos próprios? Nenhuma possivelmente! Dos amigos que consigo privavam, quantos se lembra de terem sido chamados à Guarda? Talvez nenhuns, também! Por mim, posso dizer-lhe que também nunca lá fui, mas tive amigos que era rara a semana que não íam lá levar uns cachaços e mais alguma coisita. Estes eram, que eu me lembre, as vítimas preferenciais do professor. Como eu disse, eu nunca fui uma vítima preferencial dele; nunca vomitei com medo dele, nem vi ninguém vomitar! Em contra partida vi uma prima minha, professora, a dizer que lhe apetecia deixar a escola, que tinha pavor de lá entrar com medo de alguns alunos! Sinceramente, nessa altura, senti-me tão revoltado como quando da história do vidro. Achei que, para situações destas, fazia falta um Carlos martins.
Engenheiro, é um gozo estar em frente ao computador a esmiuçar - é assim que se diz? - estas coisinhas. Penso que, lá no fundo, nós tínhamos passado bem sem ele.

Um abraço e um bom ANO NOVO.
Caro amigo:

Hoje levantei-me mais tarde e vim logo aqui para ver se me respondia. Sabe porquê? Não é pela discussão em si. Sei que no fundo temos os mesmos pontos de vista e claro que eu também não apoio os alunos que hoje em dia tratam os professores, e outras pessoas, sem qualquer respeito. Mas como diz as vítimas do dito eram também vítimas da GNR. A injustiça era generalizada. Mas voltando ao porquê de vir logo ao computador, antes do pequeno almoço.
Eu estava morto era para ver se o Sr. me respondia pois dá-me um imenso prazer discutir consigo.

Um ano de 2010 cheio de saúde e de tudo o que há de bom para si e para os seus e que o próximo ano nos permita discutir longamente sobre este e outros temas, graças ao nosso amigo Zé Alexandre que nos empresta esta sala de janelas abertas por onde a nortada passa e o cheiro a maresia nos alimenta a alma.

Um enorme abraço deste seu grande amigo
Luís


José Reis Loureiro disse:
Meu bom amigo Luiz.
Está longe de mim a ideia de branquear a atitude do professor Carlos Martins...
Depois do que ele me fez a mim, como é que eu posso concordar com a maneira como ele agia?
Agora posso dizer-lhe que cada um vê o panorama conforme a janela em que se encontra, e a sua janela, por muito próxima que estivesse da minha, não lhe mostrava parte das imagens que eu tinha possibilidade de observar.
Ora vejamos: posso fazer-lhe uma pergunta? Quantas vezes foi você chamado à GNR por actos menos próprios? Nenhuma possivelmente! Dos amigos que consigo privavam, quantos se lembra de terem sido chamados à Guarda? Talvez nenhuns, também! Por mim, posso dizer-lhe que também nunca lá fui, mas tive amigos que era rara a semana que não íam lá levar uns cachaços e mais alguma coisita. Estes eram, que eu me lembre, as vítimas preferenciais do professor. Como eu disse, eu nunca fui uma vítima preferencial dele; nunca vomitei com medo dele, nem vi ninguém vomitar! Em contra partida vi uma prima minha, professora, a dizer que lhe apetecia deixar a escola, que tinha pavor de lá entrar com medo de alguns alunos! Sinceramente, nessa altura, senti-me tão revoltado como quando da história do vidro. Achei que, para situações destas, fazia falta um Carlos martins.
Engenheiro, é um gozo estar em frente ao computador a esmiuçar - é assim que se diz? - estas coisinhas. Penso que, lá no fundo, nós tínhamos passado bem sem ele.

Um abraço e um bom ANO NOVO.
Meus caros amigos José Reis e Luís Lamela
Aproveitando o facto de a janela estar aberta e procurando dar uma lufada de ar fresco no assunto, penso que a discussão acerca do mérito do método pedagógico em questão, de tão óbvio, não merece assim tanta dedicação. Pelo facto de se estar a fulanizar o assunto, corremos o risco de ferirmos alguém, o que certamente não é o objectivo. Além do mais, a pessoa que tem estado em causa não se pode defender.
Também é um facto que não foi o Prof. Carlos Martins que inventou a palmatória, por isso o tema tem de ser visto no tempo com a devida relatividade.
O mesmo tempo que nos permite esmiuçar uma série de acontecimentos à distância, peripécias e experiências que podemos recordar de uma forma mais “lírica”, agora que já não nos ardem as orelhas nem as mãos.
Não me recordo do Prof. Carlos Martins me ter batido (também fui dos privilegiados, afinal a minha mãe estava apenas duas salas ao lado!). Agora que fui sujeito a tortura psicológica, isso fui. Em vez dos bolos, o professor entendeu que para mim, muito mimado, dizia, seria melhor tratamento envergonhar-me diante de todos sempre que dava uma resposta errada. Infelizmente, ainda foram algumas as vezes em que não acertei!
Mandava sentar-me ao seu lado, na secretária. Batia com toda a força, com palmatória na papelada que tinha arrumada no cestinho próprio, à minha frente. Não fosse dar cabo do mobiliário. Sempre a ameaçar desancar-me com a dita. Fazia-me perguntas (com aquele vozeirão que tão bem lembramos) e, claro, eu nem piava. Nem podia chorar! Penso que a minha única actividade naqueles minutos, era engolir em seco. Podem crer que era uma tortura mesmo. Os colegas, imobilizados nos seus lugares, em silêncio. A voz do Prof. Carlos Martins ecoava pela escola. Sim, porque aquela sala e a da D. Loca eram as únicas que funcionavam com portas abertas. Para minha sorte. Com efeito, tal era o alarido, que a D. Loca vinha ver o que se passava deste lado do corredor.
Abençoada D. Loca! Assim que entrava na nossa sala, “oh Carlos, tu que está a fazer ao miúdo?”. Era como quem via Nossa Senhora! “Já me safei desta”, pensava.
Mas o assunto não ficava arrumado de imediato. Ainda discutiam ali, os dois. Por uma ou duas vezes ainda a minha mãe foi chamada a apreciar o tratamento a que fui submetido. Apesar de tudo, nessa fase já eu era capaz de largar uma lágrima. Acho que de aliviado!
Justiça seja feita, também me lembro do Prof. Carlos Martins me dar um chocolate. Não sei se mais alguém se pode gabar do mesmo. Eu nem acreditava no que via. Foi na Nélia Velha, num dia em todos os professores foram lá lanchar e, por alguma razão eu e a Alexandra fomos com as nossas mães. Era um dia qualquer especial, já no fim do ano. O nosso Professor estava super bem disposto. Nunca o tinha visto assim. Fiquei a saber que, como as moedas, também as pessoas têm mais que uma face. Ainda bem!
Caro José Alexandre.
Quando postei a história do vidro da escola, não foi minha intenção denegrir ou branquear a figura do Professor, até porque, se ali ele foi demasiado injusto comigo, outras vezes houve em que também foi amigo, como foi consigo, ao dar-lhe o chocolate:
Tinha eu doze anos, já era filiado na Mocidade Portuguesa e fazia parte do grupo de velejadores da categoria de Lusitos.
Nessa altura fui destacado para ir representar Esposende nas regatas nacionais em Lisboa. Sabe que naquele tempo a vida não era como hoje, em que os pais dão tudo aos filhos. O dinheiro que a minha mãe me disponibilizou para levar para Lisboa foram dez escudos! Embora na altura esse dinheiro tivesse muito mais valor do que hoje, eram sempre dez escudos, manifestamente pouco para as necessidades de um miúdo que ia andar no meio de outros miúdos com mais posses. No dia anterior à partida, estive com o Professor Carlos Martins a ultimar as coisas para a ida para Lisboa, pois era ele o Comandante do centro de Esposende. A certa altura ele virou-se para mim e perguntou-me: - Quanto dinheiro levas? Eu não percebi a pergunta e respondi: - Porquê Sr. Professor? - Diz, que dinheiro tens para levar? Dez escudos - respondi eu! Então toma, e meteu-me na mão vinte e cinco escudos! Eu fiquei atónito! Assim como você, eu vi que aquele homem tinha defeitos mas também tinha virtudes! Depois, ao longo do tempo em que ele foi vivo, ainda tive outras alturas em que lidei com ele, nomeadamente quando era Presidente da Câmara em que me mostrou ser uma pessoa que não tinha nada a ver com a do professor que conhecia da escola.
Quando contei a história do vidro, só manifestei a tirania dele para dar ênfase ao conteúdo da história, sem isso, ela não faria qualqur sentido. Para mim, ele era uma personalidade muito forte, que impunha vigor em tudo o que fazia tanto no lado bom como no mau!
Claro, percebi a ideia. E o que o Lamela referiu também deve ser dito.
O Prof. Carlos Martins é uma personagem incontornável das últimas décadas de Esposende. Importa, pois, esmiuçar um pouco a sua história e as estórias que o rodeiam.
Deveria até ser criado um espaço próprio para o efeito, talvez nos blogs, é mais próprio, e manter este espaço para debate. Não quero encravar a discussão que pode continuar interessante.
Assim, estou a pensar criar o blog com uma pequena introdução (talvez o 2º parágrafo acima), acrescentar a estória inicial de José Reis e a minha, após o que retiro esta última deste espaço. Vou tomar a liberdade de levar ainda a última intervenção do José Reis. Ok?

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