ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

Ora saiam lá essas histórias lembrando os tempos em que nós pouco mais tínhamos do que os bons momentos que passávamos a jogar ping-pong, dominó, damas, sueca, vela, remo, acampamentos, ginástica, e partir vidros no recreio!
E, para começar, vou já contar uma que se passou comigo um pouco antes de eu entrar para filiado da Mocidade Portuguesa e que só tem a ver com esta porque os rapazes que estavam a jogar ping-pong a esta pertenciam:
Quem passou pela Mocidade sabe que a mesa de ping-pong estava instalada lá ao fundo no recreio da escola. Nessa altura eu estava no fim da 4ª classe, encontrava-me no recreio e calçava umas chancas com solas de madeira, porque era inverno e o dinheiro não dava para sapatos! A certa altura, um dos ping-ponguista mandou uma raquetada na bola e mandou-a para o sítio onde eu me encontrava. - Zé Meiras, manda daí essa bola - gritou o artista! Ora o Zé Meiras não se fez de rogado, e manda um violento pontapé na bola com a chanca que, por ser de madeira, mandou a bola com uma violência que mais parecia uma raquetada! O pior é que não foi só a bola! É que enquanto a bola se dirigiu para cima da mesa, a chanca dirigui-se para um daqueles vidros que guarneciam o recreio e provocou um estouro que se ouviu em toda a escola e, penso que, também nas Marinhas e São Bartolomeu! Para minha desgraça, chovia e o recreio estava repleto de canalhada que, ao ouvir semelhante bomba, gritou em uníssuno - estupores parecia que tinham ensaiado tal coro , só para me tramarem: - "Oooooooiiii", já estás com o Senhor Professor! Sacanas eram para aí uns cem, pareciam mais de mil! Mais não foi preciso... apareceu logo a Dª Loca! - O que foi? - Foi o Zé Meiras que partiu um vidro com uma chanca! O quê? - Ó Carlos, anda cá depressa... um maroto partiu aqui um vidro! Um segundo depois, irrompe de dentro da porta a figura colossal do professor Carlos Martins que, com aquela cara "meiga" que ele fazia quando estava "bem disposto", exclamou: - Quem foi? E logo toda aquela cambada se afastou de mim, deixando-me ali sozinho colado ao chão; olhando para o maldito pé que ainda se encontrava descalço, como se eu fosse um assassino, novamente em uníssuno grunhiu:- Foi o Zé Meiras Sôr Pressôr! Eu coitado, ali gelado a olhar para o chão... estava já à espera da sentença que, no mínimo dos casos, ía ser de meia dúzia de doces. - Vem cá dentro meu rapaz; anda vamos conversar; vamos ver se isto aqui é para andarmos aos pontapés aos vidros. Enquanto eu me aproximava ia preparando a defesa: - Sôr Pressôr num dei um pontapé no vidro, eu dei um pontapé na bola porque me pediram! Trás... um violento cachaço seguido da resposta, foi logo o prémio por me tentar defender: - então o vidro partiu-se sozinho! Trás... outro cachaço! Anda para dentro vamos conversar: - Em primeiro, chegando a casa, vais dizer à tua mãe que vá ao Mendes e Castro e compre um vidro igual àquele e o mande pôr no sítio, e agora: - dá cá essa mão, que eu quero te fazer umas festas; meia dúzia! - Agora dá cá a outra; outra meia! Nunca pensei que eu resistiria àquilo sem chorar! Mas naquela hora nem que quizesse não poderia! A raiva era tanta que eu só pensava em vingar-me; uma dúzia de bolos e ainda tinha que enfrentar a minha mãe! Com ela, eu sabia que não me bateria, pois ela não era uma pessoa estúpida e compreenderia, mas era chato envolvê-la nisto. Pagar o vidro é justo, afinal, fui eu quem o partiu!
Agora levar uma carga destas de porrada... eu não aceito: Vou iscar anzois aos banhistas para ganhar dinheiro para mandar botar o vidro e, depois, deixo passar algum tempo, vou lá de noite e faço uma rasia nos vidros que não deixo um único direito.
Negativo... cheguei em casa, contei tudo à minha mâe e disse-lhe que não se preocupasse, que eu arranjava o dinheiro e eu próprio mandava botar o vidro no sítio.
Deixei passar uns três dias, fui lá de noite, saltei o muro da sete moléstias e, com uma navalha tirei o betume de um vidro loge daquele que eu tinha partido, peguei nele e trouxe-o embora. Em casa peguei em petróleo, limpei-o de forma a que não se notasse que já era usado e pedi ao Sr. Cândido Alves, que era boa pessoa, expliquei-lhe o que se passava. Ele sorriu, foi lá pô-lo e guardou segredo até da minha mãe que,aí sim, era capaz de me dar uns tabéfes, e por aqui me fiquei.
Fui realmente vítima de uma injustiça: se levava porrada não devia pagar, se eu pagava não devia levar porrada. O professor foi injusto comigo! Talvez estivesse mal disposto e, digo isto, porque eu, até ali, nunca tinha tido razão de queixa dele e depois disso, ele sempre foi um tipo porreiro comigo... são horas!

Destas assim vivi algumas naquele tempo e naquele lugar.

Exibições: 105

Responder esta

Respostas a este tópico

Concordo perfeitamente José .
Acho que tanto a figura do Professor, como a do homem público são ricas em matéria de debate. Ambas contêm substância para interessar todos os que o conheceram. Da sua personalidade vigorosa e algo desconcertante, tudo se pode
extraír em termos de debate.
Vejamos pois, o que os Esposendenses têm para dizer acerca desta personagem que marcou algumas gerações de Esposendenses.
Reis.

Responder à discussão

RSS

© 2020   Criado por José Alexandre Areia L Basto.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço