ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

A Escola e as Novenas do Menino Jesus

Chovia que esgaçava!
Dentro da sala de aula, que tinha um enorme pé direito, fazia um frio de cão. A aragem cortante entrava pelas frinchas das janela e pelos intervalos da pesada porta, retesando-nos o nariz, já vermelho de tanto o coçar.
O professor Carlos Martins bufava e esfregava as mãos para aquecê-las e andava de um lado para o outro para aqcecer os pés.Os alunos, esses, na sua maior parte, nem umas "chanquinhas" tinham para agasalhar os calcantes, quanto mais as mãos, qu enregelavam até ficarem branca e tão pêcas … que mal agarravam a caneta de pau para executar primeira tarefa do dia que era a passar a estafante “cópia” ou escrever o “ditado”… dentro das linhas do caderno e com letra redondinha…. Tarefa difícil, nesta altura, que era acrescida pelo medo da certa e sabida entrada em funções da “Santa Luzia” que era o terros de quem "andava na Segunda" e que permanecia bem guardada dentro da gaveta da secretária do Professor !
Era certo e sabido que em tais circunstâncias, ia haver entrada triunfal da citada “Santa”, até tocar ao quebrado. Ai de quem levasse uma “bicicleta”, que correspondia na pauta, a um «8»! Ficava com as duas mãos “devidamente” aquecidas e sem frio para o resto do dia!
O «9» era o “foguete” e correspondia a uma só “arreadela”, segundo a cartilha “Carlos Martinistica”…
Estava-se no Advento do Natal.
Toda a “comunidade escolar” andava atarefada e preocupada em passar os “Versos do Menino Jesus” nas meias folhas de papel azul dobradas ao meio, compradas na Miquinhas do João Amândio ou no Vieira, da Rua Direita. Preparavam-se os «bicos» das canetas para a caligrafia especial da “letra á máquina”. Pedia-se á Sr.ª Hortênsia que reforçasse os tinteiros com uma tinta mais encorpada.
À falta de melhor, no recreio coberto, jogava-se á “chupila “, nos intervalos. Os “mais grandes”eram os que normalmente ganhavam, porque tinham um palmo maior do que os outros. Mas também “chuchavam” o mais que podiam, valendo-se do físico que tinham… e ai de quem levantasse cabelo!
Foi o que me aconteceu num desses dias.
Ao Inês, de Góios, homem quase feito em tamanho, faltaram-lhe os “botões” para jogar!
O Inês estava a jogar com os da “Quarta”, e na falta das preciosas “peças” socorreu-se de quem mais lhe estava á mão. Saí eu na rifa…
Um a um, de fora para dentro, até ás ceroulas que se usavam naquele tempo, o Inês arrancou-me tudo quanto era botão!
Fiquei com as calças penduradas nas mãos e a chorar que nem uma Madalena...
O que me valeu foi o Sai-Sai que me emprestou o fio do pião para servir de cinto.
Mas, pronto! Logo tudo passou…
Só não passou totalmente, porque a minha tia Soledade, que morava em frente á Guarda, soube pelo Zé-Cuco o que me tinha acontecido e quem fora o “malvado” que me tinha feito tamanha malandrice.
Não era tarde nem cedo. Pegou na «tranca» com que naquele tempo se reforçava a porta de entrada das casas, por causa dos ladrões e meteu-a debaixo do avental, pondo-se á coca, encostada ao tranqueiro da porta da rua.
O “mestre”Inês, vinha na “cobóiada” com o resto dos de Góios e a ufanar-se do feito exibindo um saco de “fôrmas”, como se de um troféu de guerra se tratasse…
Foi mesmo ali que a minha tia mostrou de que fibra era feita…Qual Padeira de Aljubarrota, “desembainhou” a tranca e se o Inês não foge lampeiro, rachava-o a meio!
Gerou-se grande burburinho e até veio o Sr. Oliveira, Guarda-republicano, que a custo manteve a Ordem. Ao inteirar-se do que se tinha passado, ordenou ao Inês a reposição dos botões que me haviam sido extorquidos, não sem antes lhe ter torcido uma orelha com tanta força, que o Inês diz que ainda hoje lhe dói quando se lembra do caso…
Á tarde, depois dos “problemas” no quadro do meio, ninguém foi para o recreio… Todo o mundo ficou na sala a passar “á mão” os Versos do Menino Jesus, mas com a dita “letra á máquina”…, o que era um luxo, pois, nem todos a sabiam fazer!
E logo á cabeça a vinha a “ quadra” que fazia arrepiar logo a penugem dos mais lisinhos de pele:
Ò Infante Suavíssimo,
Ó meu amado Jesus,
Vinde alumiar minh´alma,
Vinde alumiar minh’alma,
Vinde dar ao Mundo luz!

…. E logo a seguir, o refrão:

Contentes, alegres,
Nós hoje cantamos:
Oh Filho da Virgem,
Por quem suspiramos.
Oh Filho da Virgem,
Por quem suspiramos!

Alguns, mais evoluídos ou já com treino anterior, em vez de repetir os versos, punham “bis”, com uma «chaveta» á frente!
Mas era este suspiramos que era a nossa perdição á noitinha na Novena! O Piriri parecia um “mascato” sobre nós… Quanto mais nos “crócáva”, mais nós suuus… pirávamos…
A Igreja enchia-se. O Terço era rezado a uma velocidade supersónica…. mas certinho!
Nos “mistérios” gozosos e gloriosos é que a rapaziada puxava pela voz, tantas vezes acompanhada pela foz forte e firme do Ti´ Sampaio, que não perdia uma Novena ao Menino.
Depois, vinha a parte final, a preparação para a Bênção. Era outro “delírio”, que o Piriri aproveitada para mais um estibordo em que distribuía mais uma rodada dos seus famosos “cróques”, distribuídos com equidade , mas com caridade pouco cristã.
Mesmo com as mais a coçar e a afagar o couro cabeludo por causa da dor provocada, nada impedia que, a plenos pulmões e do fundo da nossa (ainda …) imaculada alma de meninos, cantássemos:
… Q´a minh´alma, já não pode,
Ser ingrat´a tant´amor,
Ser ingrat´a tant´amor.
Subia então ao Altar o Sr. Arcipreste, cantando o “Tantum Ergo” em latim, que nós acompanhávamos mas já não com a mesma energia, como uma onda da praia que se desfaz na areia… Já não tínhamos o mesmo “golfo”…
Mas lá acompanhávamos a latinada: ó mirabilis passiones , tribaquébessenos….
Lá em baixo, no escuro da Igreja, respondiam a Sarinha, a Charrasca, a Párúla, a “Crióníce”, a minha avó Micas e Naça, a Das Voltas e a Gina do Frente, que vinha “botar um olho” no seu filho “Cunçalo”, com um meio-cantado “á mánhi”.
Mas o assunto não morreu aqui, porque na Quarta Feira seguinte o Inês e a Santa Luzia tiveram o “baile”do costume para quem fazia asneiras…
Acabada a Novena, ainda não faltava tempo para os do Norte atazanarem a cabeça á “zeladora” do Menino, e cujo filho, o Portélinha, era alfaiate no Miranda. Daí o objectivo da cantilena:

Ó meu Menino Jesus,
Cadé-lo o teu vestidinho,
´stá em casa da Crióníce,
P´ra botar um remendinho.

E assim passava um dia, uma criança do meu tempo!
Sem “Pais Natais”, nem estereótipos importados; com a singeleza e o fascínio daquilo que era a nosso e na nossa tradição. A tradição que alguma pseudo intelectualidade de vanguarda , essa sim, cheia de tiques e traumas , liquidou irremediavelmente e nós papás deste tempo, aculturamos civilizadamente como cidadãos globais…
Que pena, em certas coisas, o tempo não voltar atrás!!!.

Até breve!
Zé Feliz.

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Respostas a este tópico

Boa, Zé, ressuscitaste-nos o "Ó Infante suavíssimo ... sús... piramos".
Que fotografia, que video ! ...
Esta estória, verídica pois passada entre nós, é o testemunho vivo do que era a sâ convivência e a irmandade esposendense.
É importante passar o testemunho à geração dos nossos filhos.
Continua deliciando-nos com as tuas e nossas estórias de criança.
Um abraço,
Lino

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