ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

As minhas singelas palavras a uma grande e doce senhora desta terra

 

Nuvem a nuvem o céu chora

a mágoa de perder-te

num pesar de saber-te

para lá desta vida;

numa tristeza infinda

de te sentir partir

de saber que deixarei de te sentir,

teu braço no meu braço

teu aconchego no meu desaconchego.

 

Partiste leve, etérea de idade

e deixas, sim, quanta saudade…

Moravas por entre paredes e brisas

e ventanias e sóis de alegrias .

E teus passos

levavam a urgência

que arrumavas no teu corpo

como um sopro

quase louco

na tua fragilidade.

 

Partiste a pedir descanso para o teu cansaço

mas negaste o último abraço.

No orgulho que te restou de vida

disseste que ficarias sozinha

aguardando somente

a última luz

vertida

pela tua fé em Jesus.

 

Partiste, mas não partiste da memória.

escreverás a tua história entre as paredes

da casa que fundaste e amaste

erguendo-a das pedras

como pedras foram

tantos os desafios para

tão frágeis braços:

assim tua enorme  alma o pretendeu,

exemplo tecido no céu.

 

Esse céu que te recebeu

em hinos de alegria, porque a tua alegria

fora a clave duma sinfonia trazida

do além das nuvens

Agora, na liberdade de ave,

leve alma imortal,

perduras por entre as árvores

e a maresia da nossa terra;

és mar e sal,

és rio e estio a verter

doce calor no meu coração

num clamor de sino a repicar,

no fragor nocturno

de mar a ecoar

na recordação que me deixas.

 

Partiste

e mesmo assim ficaste.

E eu a recordar-te doce e terna

etérea como ave,

asinha na viagem que traçaste,

essa viagem

que esboçaste num arco-íris

vertido na cor  

da tua vivacidade.

 

E para sempre, seja inverno

ou estio ou o casario mergulhe

na névoa do rio…

tu estarás aí,

ausente, sim…

mas indelével no meu presente.

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Comentário de Maria Paula Fernandes Ferreira em 1 junho 2019 às 19:46

Recordo-me bem deste poema da Bernardete. Como gostei de voltar a lê-lo no estilo inconfundível da Bernardete.

Obrigada pela partilha, Zé Alexandre.

Comentário de maria manuela f. areia losa em 21 junho 2012 às 1:10

Querida Bernardete: comentei e agradeci no blog que a Luísa abriu. Só quero acrescentar que este seu poema só não me põe derretida em lágrimas, porque a minha tia e madrinha nos deixou, sensata e sabiamente, o recadinho, que espero que receba na pagela que lhe chegará às mãos: "Se me amas não chores"...
Não sei como agradecer, também em nome da família, tanto carinho. Bem haja, Bernardete, e os esposendenses que se manifestaram: acho que foram todos. É reconhecida, a nossa terra...

Comentário de bernardete costa em 19 junho 2012 às 9:56

Não agradeça, caro Alexandre. O que nos vai na alma em momentos de perda e saudade, são sentires, quantas vezes inexplicáveis. Se o soube fazer através das palavras...,não fui eu que o fiz, foi essa parte de mim que acolhe no esconso do coração pequenos gestos, toques, doçuras...que pairam, etéreas? numa nuvem e nos fazem mais nuvem do que a própria nuvem.

Abraço terno.

Bernardete

Comentário de José Alexandre Areia L Basto em 19 junho 2012 às 0:45

Cara Bernardete

Estou emocionado. Acho que escreveu com o coração. Com um feeling inacreditável.

Infelizmente, não presenciei a despedida da minha madrinha, mas, pelo que me descreveram, foi algo de tão profundamente pacífico e um momento de uma tal elevação que nos encheu e nos deixou megulhados numa imensa, e ao mesmo tempo estranha, sensação de conforto.

A Bernardete parece ter vivido também aquele momento. Não será por um mero acaso.

Já li, já reli e não sei quantas vezes mais vou ler este pedaço de poesia. Vou passá-lo ao papel e divulgá-lo no seio da família.

Como é habitual, fizemos uma pagelinha dedicada à minha madrinha. Acho que todos os que emitimos alguma opinião sobre como a fazer, fomos unânimes: deve conter uma imagem do pôr-do-sol de Esposende colhida pela própria. Acho que todos imaginamos que seria uma foto em que estivessem presentes núvens. Ou uma núvem. Esta ideia da núvem tem assumido um sentido extraordinário de aplicabilidade ao caso da minha madrinha. Será um acaso, mas acho que a minha madrinha nos pôs a todos a pairar numa espécie de poesia. E não é que a Bernardete nos diz agora que se sente muito núvem?

Não tenho dúvida que perdemos uma pessoa que nos fazia, e faz, elevar os pés do chão. Que melhor testemunho?

Muito obrigado, amiga Bernardete, pela belíssima obra que produziu e parabéns pela inteligência, pela sensibilidade e pela habilidade com que expôs o que lhe vai na alma. Uma alma assim levita... como uma núvem.

 

 

PS: Peço desculpa pela demora na reação, mas só hoje tomei conhecimento desta postagem (obrigado, Luisinha!)

Comentário de Augusta Eugenia da Cunha Eiras em 15 junho 2012 às 11:32

É linda e muito comovente esta homenagem à Dona Amelinha.Era uma senhora muito querida por todos.Era maravilhosa no seu voluntariado.Um dia em que tive que recorrer ao Hospital e me colocaram numa cama a soro e ela chegou logo a seguir e assim que me viu. Que se passa Augustinha,espere só um pouquinho que eu vou vestir a bata senão não posso estar aqui consigo.Depois da bata vestida sentou-se ao meu lado e me deu todo o seu apoio que nunca esquecerei. Sempre foi acarinhada por ela e suas irmãs.Jesus a recebeu de braços abertos e agora ela vive na Paz dos anjos continuando a velar por seus familiares. Parabéns Dona Bernardete. Um beijinho

Comentário de bernardete costa em 14 junho 2012 às 23:50

era mesmo, gostava de me proteger, sentia que me amparava, e sinto falta dela, especiallmente nesses momentos cúmplices. Hoje estou muito nuvem...por ela, admirava-a imenso.

Comentário de Maria Paula Fernandes Ferreira em 14 junho 2012 às 23:39

Linda homenagem à Àmelinha,Bernardete!Li e reli.Quando tu dizes « O teu braço no meu braço»,de repente eu vi essa imagem tão comum na Amelinha para contigo.Ela fazia isso muitas vezes.No fim das aulas metia-te o braço e lá vinham vocês as duas rua fora a conversar.  

Parabéns por esta bela homenagem.

Comentário de Carla xxxx sxxxxx xxxxx em 14 junho 2012 às 14:11

É linda a poesia a homenagear mais uma pessoa querida pessoa da nossa terr, que já partiu.

Que descanse em paz esta Senhora.

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