ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

 

Meu pai partiu na cauda dum cometa. Tão rápido

que nem tempo teve para dizer adeus…,

e logo se sentou numa nuvem mesmo no azul dos céus.

 

Meu pai, que era maroto e divertido,

pregou-me esta partida: sem dizer ano, nem mês,

nem dia, montou sua égua de luz e ficou a sorrir

quando deparou com Jesus

e o viu sentado numa escrivaninha a fazer contas

de somar e subtrair como se fora um economista.

 

Meu pai nunca pensou no céu

como um lugar de preocupação financeira.

Então, numa brincadeira de criança, fugiu a correr

e num avião de papel tomou viagem de volta

sem Deus se aperceber.

 

Quando acordei, meu pai era um passado distante

e o seu rosto esmaecido na memória; somente

o sorriso permanecia cativo

no brilho de uma estrela cadente.

Meu pai partiu sem dizer adeus, levando consigo

o passado e o presente,

 

porque o futuro continuará nos céus onde ele permanece

sorridente,

para espanto dos olhos meus.

 

(in Transpiração, Bernardete Costa)

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Comentário de Maria Paula Fernandes Ferreira em 20 março 2012 às 19:53

  De tanto que gostei do teu poema ao pai e depois de te ter ouvido daquela maneira tão bonita como só tu sabes fazêlo,voltei a lê-lo,numa hora tranquila,sozinha e apreciá-lo com toda a atenção.  

Mais uma vez,parabéns

Comentário de Luisa Lamela Gomes dos Santos em 19 março 2012 às 21:14

Este poema é magnífico, Bernardete!

Depois de ler a sua Transpiração, que gentilmente me ofereceu, creio ter-lhe falado das minhas preferências, entre tantos textos lindos ali reunidos.

Pois este era exactamente o eleito, acima de todos.

Só de uma grande inspiração, associada a um grande talento literário, brotam formas de dizer como «Meu pai partiu na cauda de um cometa» ou « montou sua égua de luz».

Parabéns, amiga. Belíssima homenagem ao seu Pai.

Um abração.

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