ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

Vou contar uma história passada cá no burgo há muitos anos atrás. O protagonista foi uma figura inesquecível de muitos Esposendenses: O FERNANDINHO.

Como todos os meus contemporâneos se lembram o Fernandinho fazia tudo e mais alguma coisa. Desde concertar canos, soldar regadores, limpar fossas tudo servia para ganhar um dinheirito que depressa passava do bolso do seu fato macaco para a gaveta do Abílio Coutinho, Barrigana ou Tina da Lucas se o trabalho fosse no Norte ou para a do António do Sul, Berta Bicheza ou Nazaré se a tarefa fosse no Sul. No centro o Marino ficava mais à mão.

Uma das suas múltiplas actividades era a de rachar lenha ao domicílio coisa que fazia na casa dos três irmãos Beirões: a nossa casa, a da Tia Miquinhas e a do Titô (o meu Tio Manuel Beirão).

Um dia foi rachar lenha para casa da Titia e, a determinada altura da tarefa, queixou-se que o machado estava velho e já não cortava nada. Compreendendo a situação a minha Tia deu ordens para a compra de um machado novo e encarregou o Fernandinha de ir buscar um à casa Braga. Seria para pôr na conta, pois ninguém confiava dinheiro ao rachador. Se assim não fosse o machado viria tingido de verde tinto a adicionar à factura.

Passados alguns dias o Fernandinho veio rachar a nossa lenha. Tal como na Titia disse à minha Mãe que o machado não cortava e era preciso comprar um novo. Ele até tinha um para vender a bom preço. E lá comprou a minha Mãe o machado da Titia que o Fernandinho tinha surripiado depois da rachação.

Dias depois chegou a vez de rachar em casa do Titô. E a história repetiu-se: o machado estava velho, era preciso comprar um novo e ele tinha um em bom estado para vender. E lá foi o nosso machado vendido ao meu Tio.
Estava o Fernandinho a rachar em casa do Titô quando as manas Beiroas o foram visitar. Ao olhar para o quintal a Titia perguntou: Manelzinho, mandaste o Fernandinho buscar o meu machado? A minha Mãe resolveu espreitar e disse: Miquinhas aquele machado é meu. Comprei-o ao Fernandinho. O meu Tio topou logo a tramoia e mandou chamar o Fernandinho. Chegado à sala e confrontado com a vigarice não se desconcertou e exclamou no seu ar pomposo: o machado não é da Dona Miquinhas, nem da Dona Quininha nem do Senhor Beirãozinho. É da família.

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Comentário de Maria Paula Fernandes Ferreira em 29 novembro 2017 às 22:45

As histórias sobre o Fernandinho são hilariantes e de um realismo fantástico. Foi este o Fernandinho que eu conheci. Também vinha muitas vezes a minha casa para os desenrascas. Sempre muito bem disposto e brincalhão, mas muito respeitador. Uma das vezes que veio a minha casa, disse para a minha mãe:- Sabe Senhora que eu fui fazer uns trabalhos na igreja e, como nunca lá ia, nem à missa, tive um bocado de respeito. De repente, olhei para a Nossa Senhora de Fátima e ela estava a rir-se para mim.

Muitas mais coisas se poderiam dizer desta figura típica, que era o Fernandinho.

Comentário de José Reis Loureiro em 28 novembro 2017 às 23:18

Pois é, o Fernandinho! Estou a lembrar-me de uma cena que teve lugar numa casa onde eu trabalhei nos princípios da minha vida. Era uma oficina que tinha aberto algum tempo antes, mas que dado o seu  rápido crescimento, cedo se tornou exígua para o número de pessoas qua ali trabalhavam! De tal modo que a única sanita existente começou a ser incapaz de dar saída ao fluxo de excrementos produzidos, de tal forma que, a certa altura, as coisas começaram a complicar-se! E então o que aconteceu: aquilo começou a encher-se mais do que a sanita podia debitar e começou a ameaçar botar por fora! Para complicar mais ainda, acabou por entupir! Ora aquilo não podia acontecer, mas aconteceu e agora? Agora alguma coisa tinha que ser feita e, a solução foi a recruta de voluntários para tentarem desentupir a sanita! Primeiro produtos químicos, depois vassouras e baldes de água, trocos de couve tortos daqueles que usávamos para jogar ao setique e o que conseguíamos era apenas esbordar tudo por fora e soltar uma epidemia de cheiros nauseabundos? Então, perante aquele desalento, alguém alvitrou: O Fernandinho, ele arranja isso. Eureka... era isso mesmo! Há que chamar o Fernandinho e, entretanto ir preparando uma sandes de queijo e uma caneca de vinho. Cumpridos estes preceitos o Fernandinho lá apareceu com a sua inseparável caixa de ferramentas às costas, pronto para enfrentar a escabrosa missão! Mal entrou, pousou no chão a caixa que trazia e os olhos dele sorriram ao reparar na mesinha onde a sanduiche de queijo e o vinho sentenciados, esperavam o seu carrasco. Logo, não foi preciso explicarem-lhe ao que vinha, pois começou logo a arregaçar a manga da camisa dizendo: Então foi isto que provocou todo este alarido? Com a manga já arregaçada, inclinou-se para a sanita e perante a incredibilidade dos presentes enterrou o braço no conteúdo da sanita, remexeu, remexeu e, segundos depois, mostrou um monte de farrapos que alguém, maldosamente ali tinha depositado! Se ficou pasmado com o facto e ele enterrar o braço, pasme-se mais ainda ao saber que ele, depois de ter soltado o lixo da sanita, sem sequer lavar o braço, puxou a manga da camisa para baixo, pegou na sanduiche, encheu um copo de vinho comeu, bebeu o vinho e foi-se embora sem sequer lavar o braço e as mãos! Esta estória nunca mais esqueceu a quem a presenciou!

Comentário de Luisa Lamela Gomes dos Santos em 28 novembro 2017 às 19:40

Andei a ver coisas tuas antigas. Concluí que uma das mais maravilhosas marcas dos teus escritos é o realismo dos factos e respectivos intervenientes. Esta constatação leva-me até ao que disse o Z A sobre outras redes sociais. Explico: onde é que, no facebook, encaixam o Barrigana, o Abílio Coutinho, a Tina da Lucas, o António do Sul, a Berta Bichesa, a Nazaré e o Marino? Ainda por cima, tudo organizado por pontos cardeais!

Esta galeria de personagens é o máximo e tu és exímio a mostrá-la, quase ao vivo e a cores, mesmo ao pé de nós, o Senhor Abílio uma casa à frente da nossa, a Tina da Lucas logo a seguir, na esquina, e o Barrigana em frente.

Venham mais histórias, Luisinho. 

Comentário de Luisa Lamela Gomes dos Santos em 28 novembro 2017 às 18:39

Pensava a gente que já não havia mais histórias para contar sobre Esposende, e eis senão quando…surge esta pérola! Faltava aqui este Fernandinho, mais especificamente um Fernandinho contado assim, com a graça e o jeito do meu querido irmão.

Hei-de ler o teu texto aos amigos habituais do café, que vão achar muita graça à história e ao narrador.

O poeta dizia que «o melhor do mundo são as crianças». Pois é, Luisinho, o melhor de tudo não é o teu texto nem o “teu” Fernandinho; o melhor de tudo és “TUDEVOLTAQUI” (tu de volta aqui).

Que mais tens para nos contar?

Comentário de José Alexandre Areia L Basto em 28 novembro 2017 às 9:48

Brilhante! O Fernandinho e o texto.

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