ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

Uma certa noite, seriam por aí 11 horas, estava eu a beber um fininho no Velasco, quando reparei que ao balcão estava o Zé Batateiro. Para quem não se lembrar do Zé era o sogro do Tone Barbeiro que emigrou para o Brasil, matou um polícia logo à chegada e passou o resto da emigração na cadeia. Se isto não for exactamente assim foi como me foi contado em algum socairinho cá do sítio. De repente vejo sair do seu canto o Luisinho Soqueiro já bastante tocado. Chegou-se para as costas do Zé e começou a embirrar com ele. Disse, redisse, insultou, pegou enquanto o Zé, só dizia “Cala-te Luís”. Mas a coisa não parava mesmo depois das diversas tentativas do Velasco para calar o Luís. Ficou tudo sem pinga de sangue à espera que aquele homem enorme se levantasse e usasse da violência de que tinha fama contra o fraquelas do Luisinho. Mas não. O Zé pagou a conta e foi-se embora.

Com o ambiente desanuviado recomeçou o barulho do costume e ninguém reparou na saída do Luisinho.

Quando acabei o fino saí e fui até ao quartel dos Bombeiros que ainda era o antigo. Na altura pertencia ao corpo activo e era habitual o pessoal passar por lá à noite parar fazer alguma companhia aos permanentes, o Né Beleza e o Vasquinho que se revezavam a cada noite. Lá estava o Vasquinho de serviço e o Zé Alberto a fazer-lhe companhia. E ali ficamos na conversa.

Eis se não quando entra o Luisinho com as mãos agarradas à barriga e, na sua voz calma habitual, só dizia “Manel, arranja-me um penso para pôr na barriga”. O Zé Alberto que se ainda não era médico estava a acabar medicina (não me lembro bem), levantou-lhe a camisola e aí vimos seis buracos a sangrar. “ Que foi isto?” perguntou o Zé aflito ao que o Luisinho respondeu: “isto não é nada. Foram seis navalhadas que me deu o Zé Batateiro”. Pelos vistos o Luisinho quando saiu do Velasco veio atrás do pobre homem até a sua casa ,mesmo junto aos bombeiros, sem parar de pegar com ele.

A mando do Zé Alberto levamos o Luisinho para o Hospital de S. João e fui eu o maqueiro. Antigamente os bombeiros entravam por ali dentro com os doentes na maca e assim foi. Levei o Luisinho até à Urgência onde prontamente um médico o atendeu. Ao ver aqueles buracos o médico inquiriu de que se tratavam e eu expliquei que tinham sido navalhadas. O Sr. Doutor, para ter uma noção da profundidade dos cortes perguntou de que tipo de faca se tratava. Como o Luís não respondeu eu disse que o agressor tinha fama de usar navalha de ponte e mola. De imediato o Luisinho repreendeu-me dizendo: “Lá pelo homem me ter dado seis facadas não precisas de vir para aqui dizer mal dele". Depois o médico mostrou-lhe uma agulha tão grande como eu nunca tinha visto. Era tão grande que depois passou por ela um tubo. O doutor disse ao Luís que lha ia espetar na barriga e que talvez lhe doesse. O Luis prontamente respondeu: “ Óh Senhor doutor, tenha a bondade”.

Era assim o nosso Luisinho Soqueiro bom rapaz, delicado e educado embora com muita sede. Gostava muito dele e acho que ele era meu amigo. Tenho muitas saudades deste camarada.

Peço desculpa por usar as alcunhas que escrevi e pela imprecisão de alguma coisa contada sobre estas personagens, mas se assim não escrevesse não cheiraria a Esposende, terra cheia dos cheiros de tantos outros que, como o Luisinho Soqueiro, encheram a nossa memória colectiva.

Que Deus o guarde no Céu e, uma coisa vos posso garantir, aquilo lá em cima deve estar tudo muito bem pintadinho já que o Luisinho era um pintor exímio. O Zé Batateiro também já partiu há muito e lá se entenderá com o Luisinho.

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Comentário de Luisa Lamela Gomes dos Santos em 30 novembro 2017 às 0:40

É o que eu digo, Luisinho: os teus quadros, ou as tintas com que os pintas, são de um realismo notável. O cheiro a Esposende, para usar o teu termo, chegou aqui a Braga "talequalmente".

Fico a pensar como essa rapaziada, apesar de ter sempre «muita sede», é hoje recordada por quem, como tu, com ela privou de perto, com muita simpatia e carinho. Aquala «sede» tinha, certamente, uma explicação qualquer... 

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