ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

A senhora Rosália morava numa aldeia de pinhos no litoral pobre do norte; o olor a maresia penetrava pelas manhãs de névoa e entranhava-se nas ripes das habitações de uma só divisão; esta de serventia simultânea, quarto, sala e cozinha; pois que WC, vulgarmente conhecido por caganeira ( que me perdoem os ouvidos mais sensíveis esta linguagem tão chocante de vulgaridade popular), instalava-se no meio do quintal por entre o verde tenro das couves e das saladas, para que se saiba, melhor adubo não havia – ah, e a lisura das folhas lá resolviam os problemas relacionados com a higiene, que nem era muito exigente nesses tempos de abundante água, ainda que de parcas comodidades.
Juntamente com o marido, o Trocate das Couves, não importa aqui tecer argumentação para tal alcunha, a senhora Rosália levava uma vida de penúria em tempos de fome, mesmo que de fartura para alguns privilegiados, uns pela boa fortuna, outros pela vigarice e outros ainda pela agiotagem, moda que pegou logo que os judeus vieram por ai acima empurrados pela inquisição.
Como muitos casais a viver na aldeia, criavam o seu porco num lameiro para onde caía, dum carreiro de pedra talhado na parede da única divisão da casa, os restos miseráveis das tonas de batatas e dos talos de couve essencialmente, porque pouco mais existia na horta diminuta, e de pouco mais se fazia a dieta diária – num tempo em que dieta designava fome.
Com efeito, o chico, depois de engordado pelas tonas e pelo tempo, haveria de ser bem aproveitado, tripas, bofe, focinho…, e mais bem acondicionado em salgadeiras de barro, estampadas por motivos de farta usança, que o manteriam em boas condições de conservação, a fim de ser ameigado mais tarde pela cozedura num pote de ferro, juntamente com umas batatas e umas couves arrancadas à sóbria horta.
Talvez por maledicência, aceitemos antes como forma de distração das agruras da vida, não com certeza por inveja, o mulherame da vizinhança, como praga de carraça, não deixava de incomodar a desafortunada da senhora Rosália.
“Coitado do teu chico, Rosália, nem anda nem desata de tão magricela, nunca é mais carne para a panela…”
O homem da desditosa, assolada por tanta chinfrineira, um dia resolve:
“Deixa mulher, vamos soltar o chico. Quem sabe, assim, o bicho se alimenta disto e daquilo e, mais cedo do que supõe, fazemos inveja com a salgadeira bem cheia de carnes tenras e rosadas ao agoirento mulherio.
Assim o casal resolveu fazer.
O animal, porcino, como é o caso e é de bom tom que se diga, livre pelos campos, pelos pinhais, pelas dunas, foi parar junto dos barcos de pesca. Logo se banqueteou de peixaria farta, com maior justiça dizendo, de tripa e de restos de sardinha, que, depois da faina, os pescadores lançavam às areias conspurcando-as com os excrementos imundos.
Comeu o chico, comeu, que de esfanicado e feio, ficou gordo e anafado; logo chamou a atenção das gentes da aldeia; estas, de imediato, foram avisar o paupérrimo casal, alertando-o para os seus direitos ao bicho perdido por terras marinhas, como se não tivera dono nem serventia.
O certo, é que o bicho foi agarrado, e por entre grunhidos de arrepelar os cabelos – não admira, já sentia no couro o facalhão a rasgar-lhe as carnes e as tripas! - foi entregue aos donos primeiros, que segundos nunca teve, a não ser a liberdade que também é dona de quem a sabe usar…, e aplicar enquanto é tempo de esquivança, coisa que o bicho não pensou; assim se logrou fortemente artilhado pelas patas debaixo do braço forte do pescador Nelito.
Mas ó desgraça, mal se lhe espeta o facalhão, o bicho esvazia como um balão furado e fica reduzido a metade! Tal o espanto dos presentes, mais a tristeza dos donos, que viam, com olhos que a terra havia de comer, o animal minguar sem qualquer justificação de entendimento!
Do mal, o menos, havia que se aproveitar o que ficara do esvaziamento. Corta dali, corta dacolá, prepara-se o animal para a salgadeira e convidam-se os familiares próximos para provar a febra tenra e rosada.
Sendo sabido que uma desgraça nunca vem só, o raio da carne “sabe a sardinha”, urra a sobrinha, contrariada, a lambuzar os beiços, a prever sabores e desforras de minguança.
Há que confirmar. Realmente a carne do bicho está impregnada do gosto a peixaria que havia comido; evocam a sardinha para três, coisa que senhora Rosália e o consorte se esforçavam por esquecer naquele momento de ilusória fartura.
“Deixa lá, mulher”, contemporiza o Trocate das Couves, “com alguma sorte a festança rolará mais tarde”; dizemos nós, não se deve de desistir às boas daquilo a que se chama seu.”Vou mergulhar a carne no rio. Perde o gosto pela certa”, retruca, convencido, o infeliz.
Vai a vizinhança em romaria e ali, na beirada do rio, onde não havia perigo de cheia nem de razia, é posta a carne a demolhar, lave a água o sabor da pescaria.
Mas como uma desgraça nunca vem só, e já nos repetimos, não é que o raio da carne, quando vai em festança de domingo com convidados e vizinhos ser posta à provação, é seca e dura como couro?

Bernardete Costa

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Comentário de Maria Paula Fernandes Ferreira em 23 julho 2011 às 19:43
 Interessante história com a ficção aliada à realidade. Será que o Felgueiras, nosso amigo e professor da U.A. já o leu? É uma história bem ao seu estilo,na graça e no tema do género das que ele conta e se diverte ao fazê-lo.

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