ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

O encontro de todos os filhos ou rendidos ao Privilégio da Natureza

UMA VIVEÑCIA DE MÃE, JÁ LÁ VÃO 28 ANOS. ESSA LUZ DEIXADA POR FILIPE AINDA PERMANECE...

“A dor detona o sentimento de amor”

Sergio Antonio Meneghetti

Era véspera de Natal.

A aurora surgira depositando farrapos de inocência nas árvores. Lara encostava o rosto à vidraça deleitando-se com a visão imaculada daquele amanhecer lento que hesitava em despedir-se do silêncio e da tranquilidade nocturna.

A manhã despontava branca e fria como brancos e frios eram os corredores longos e perdidos daquele hospital onde Lara passara os últimos quinze dias.

Embalava nos braços a criança de um ano de vida, só. De rosto fechado, de olhar febril mas seco - esgotara todas as lágrimas durante dias e noites de vigília -, murmurava docemente, envolvendo no seu regaço o corpo lívido da criança, Não chores, filhinho.

Lara queria rezar ainda que soubesse que a oração fosse uma falta de fé. Há muito tempo que abandonara a crença em milagres divinos. Na sua alma somente havia lugar para a acumulação de rancores que se prendiam com vivências e práticas religiosas dum tempo adolescente. Não muito depois sentiria, como feridas abertas, os remorsos nascidos da sua credulidade dilacerarem-lhe a alma.

Hoje, apesar do tempo decorrido, calava-se e, ainda que um grito interior lhe rasgasse as entranhas, não conseguia implorar a misericórdia desse deus que, a crer na educação dos seus progenitores, lhe poderia aplacar o sofrimento neste momento excruciante.

O seu coração endurecera e esta dor recente que não compartilhava com seres divinos, mesmo com familiares, arrastava-a pela vida, talvez num mutismo doentio e… egoísta.

Entretanto, uma aragem de medo e de morte penetrara no quarto como um calafrio; o médico e a enfermeira tinham acabado de entrar, portadores daqueles instrumentos que enchiam o olhar dos dois - mãe e filho - de angústia e de dor, uma dor, tantas vezes, quase insuportável.

- Então, vamos à piquinha desta bela borboleta? - procurava gracejar a enfermeira sorridente de meiguice e comiseração.

A criança olhava. O imenso olhar negro, loucamente aberto, incidia na agulha que avançava sobre as veias ressequidas, após os tão longos e vários tratamentos de quimioterapia. O que se seguiria iria deitar aquela mãe por terra, sentir-se-ia impotente perante o sofrimento que contorceria o corpo do seu filho.

De imediato, trespassam pelas paredes imensamente brancas os gritos da criança. São mais de pavor que de dor ao sentir a ponta fina da “borboleta” penetrar-lhe na veia gasta, onde seria depositado o líquido incolor que, dizia o médico, lhe permitiria sobreviver.

Imprevistamente, arranhando pelas paredes alvas, ouve-se como um eco repercutindo na garganta de uma montanha:

- Deixem o bebé! Deixem o bebé!

Filipe gritava apelando às forças derradeiras. Num quarto próximo, permanecia como uma silhueta arrastando a sua dor. Por companhia antecipada, a morte, essa mão anónima e incompreensível que lhe desfazia a carne e lhe destruía a alma inocente.

Médico e enfermeira entreolharam-se e hesitaram no acto que faziam.

- Deixem o bebé!...Deixem o bebé... - ecoava ainda, já quase inaudível, num gemido último de súplica.

Filipe possuía somente 8 anos de idade. Leucemia galopante, afirmaram os médicos depois de realizados os primeiros exames.

Haviam já decorrido dez longos e intermináveis meses naquele hospital branco, duma brancura sombria, onde o sol desmaiava, implacável, nos dias de Filipe.

“…no 2º ano de escolaridade, tão aplicado, tão meigo…”, comentara um dia a professora que o viera visitar e levara consigo os olhos marejados de lágrimas de revolta contra um deus a quem apelara inconsequentemente.

A mãe, debilitada, encontrava-se internada numa clínica, recuperando duma crise de esgotamento nervoso. Era uma tia, irmã da mãe que, abandonando marido e filhos, percorria passo a passo, minuto a minuto, os dias que restariam a Filipe. Poucos, proferira o médico, o rosto marcado por linhas de apreensão.

Era Inverno. Véspera de Natal, já aqui se disse. Lara acalentava a esperança de poder festejar aquele dia no calor do lar, no seio da ternura apetecida e quanto necessária da família.

- À tardinha, comunicara o médico, logo que passem os vómitos ao bebé. Sim, talvez possam ir passar o Natal a casa.

Passado algum tempo, a mãe, sentindo o breve adormecer do filho, levantou-se da cadeira junto ao seu leito e, pé ante pé, percorreu alguns passos no corredor, gelidamente branco, até ao quarto contíguo.

Filipe sorriu debilmente ao vê-la. E num fio de voz perguntou:

- O bebé já não chora? Não o picam mais hoje?

Lara chegou a si o corpo franzino da criança e, beijando-o com toda a ternura, murmurou:

- Obrigada, Filipe, pelo teu cuidado. E tu, estás melhor, não sofres?

- Já não, Lara, as minhas dores desistiram de mim.

Depois, Filipe fechou lentamente os olhos fundos coroados de manchas arroxeadas e os lábios entreabriram-se para uma última palavra que nunca chegou a proferir.

Lara uivou como uma loba no momento de parir. Nesse mesmo instante, um raio de sol que espreitava pelas persianas corridas daquela morada final, deslizou e pousou no corpo mirrado do menino. Uma luz intensa clareou o espaço à sua volta. E no derradeiro calor dos seus raios, transportou consigo o sofrimento amortalhado naquele corpo de criança.

Lara sentiu esse fio de luz quente penetrar-lhe no corpo e na alma; colocou-o docemente sobre a cama como quem pousa um ramo de frágeis flores e olhou aturdida aquela claridade abandonando o quarto, enfiando-se pelas ranhuras das persianas.

Era Natal. Dos olhos secos de Lara caiu uma lágrima esquecida. Para Filipe chegara o seu último Natal. E com ele a paz que o nascimento lhe sonegara.

Partira. Mas a sua recordação solidária, a sua enorme capacidade de amar esquecendo o seu próprio sofrimento, permanecerá sempre no coração de Lara, como um sorriso de luz translúcida cobrindo de esperança os dias do futuro.

Bernardete Costa

Exibições: 52

Comentar

Você precisa ser um membro de ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO para adicionar comentários!

Entrar em ESPOSENDENSES - NA RIBEIRA OU NO MUNDO

Comentário de Teofilo E Costa Moreira + Ló em 1 junho 2010 às 8:20
Bonito texto e oportuno, pois as crianças que sofrem geralmente fazem-no em silêncio, o que torna muito mais difícil assistir ao seu sofrimento.

© 2021   Criado por José Alexandre Areia L Basto.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço